Pensando história através de desafios práticos:
(
Cecilia Schubsky)
“A
história dos povos sem escrita – Neste trimestre a turma Waiwai (6º ano)
começou o estudo sobre os primeiros seres humanos que povoaram a Terra. Para
isso, foram propostas algumas atividades-problema de forma a facilitar que os
alunos percebessem alguns procedimentos que a humanidade viveu.
Inicialmente
fizemos o desafio de sobrevivência, em que construí uma narrativa semelhante a
um jogo de RPG. Nessa narrativa os estudantes deveriam imaginar um grupo de
pessoas composto por três adultos, duas mulheres, um homem idoso machucado e duas
criançasse perdeu em um ambiente semelhante à savana africana. O desafio era
fazer com que esse grupo sobrevivesse.
Abrimos
a discussão para a turma e produzimos um registro coletivo sobre o que todos os estudantes pensavam acerca de
quais seriam os requisitos básicos para a sobrevivência desse grupo. Concluímos
que precisariam de água, alimento, abrigo e uma maneira de cuidar do homem
idoso. Alguns estudantes ressaltaram que o idoso, apesar de ferido, deveria
ser o mais sábio, pois ele tinha mais
experiência de vida que os demais. Lembramos, também, que era preciso cuidar e
proteger os mais novos, para isso o grupo deveria se dividir, cabendo a uma
mulher cuidar do idoso e das crianças enquanto os outros iriam em busca de
abrigo e alimentos. A garotada ressaltou que esse grupo precisaria de
instrumentos e armas que possibilitassem a caça e a defesa dos ataques de
animais. Nesse momento surgiu um problema: como fabricar os instrumentos que
eles precisavam?
Muitos
fãs de videogames lembraram do jogo “Mine Craft”, no qual um boneco luta para
sobreviver e colonizar um ambiente hostil. Nesse momento o contato com esses
videogames ajudou muitos deles a pensar sobre a questão da sobrevivência a
partir dos desafios enfrentados pelos personagens. Houve quem lembrasse de
séries como “Lost” e “Walking Dead”. O bate-papo foi bem rico, em que todos
quiseram participar. Houve até quem ficasse chateado por não conseguir falar
tudo aquilo que queria, afinal o tempo passou muito rapidamente.
Outro
grupo ressaltou que o fogo seria essencial para a sobrevivência dos nossos
aventureiros. Porém, mais uma vez, a dúvida
surgiu: como produzir fogo?
Todos
alegaram que produzir as armas e o fogo era fácil, pois bastava pegar galhos e
pedrinhas. Assim surgiu a ideia do segundo desafio: Cada um deveria produzir um
instrumento ou uma arma usando somente os recursos da natureza. Para tanto
fizemos um passeio no entorno da escola, onde os estudantes coletaram galhos,
pedras, bambus e cipós. Inicialmente, cada um tinha a intenção de fazer um
instrumento bem sofisticado: Lanças com pontas de pedra bem afiadas,
estilingues, machadinhas, varas de pesca... As ideias eram muita. À medida que
trabalhavam, perceberam que a tarefa não era tão fácil assim. Faltavam
elásticos para os estilingues, os cipós não amarravam direito, as pontas dos
machados caiam. As idéias iniciais tiveram de ser substituídas, e no dia da
apresentação tivemos muitas pontas de lança, bengalas e espadas de madeira.
Três
estudantes não resistiram e acabaram incorporando barbante, cola e cordões aos
seus instrumentos, pois, como eles declararam, era impossível fazer sem eles.
Saldo final: todos quiseram repetir a proposta, porém dessa vez usando instrumentos
modernos para auxiliar no trabalho.
Sobre
a tarefa, a turma concluiu que a vida dos primeiros habitantes do planeta não
era nada fácil, pois “eles tinham que inventar tudo, do zero, não tinha nada
para ajudar”.
Foi uma experiência muito rica, que permitiu que
refletíssemos não só sobre a vida dos primeiros humanos do planeta, mas também
sobre o que é tecnologia”
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Breve discussão:
O interessante no trabalho da educadora é não apenas ter se baseado no "role play", mas não ter se limitado a experiêncioa de mesa do jogo, e extrapolado a ferramenta para uma dinamica mais rica (praticamente um Llive Action"). O resultado não poderia mais satisfatório, já que teve como resultado fazer os alunos, após se "colocarem na pele" de nossos ancestrais, compreenderem de uma maneira mais profunda não apenas o periodo estudado, mas igualmente poderem refletir sobre o nosso presente e a nossa profunda dependência de tecnologia nos níveis mais básicos de existência para garantia de vida
Ao mesmo tempo muito me agrada que o RPG possa ser uma uma ferramenta das mais versáteis no ambiente escolar. Seu uso em matemática, leitura e escrita, uso de bilbioteca, linguas estrangeiras, arte, filosofia, geografia e, claro, história, mostram que a sociedade só tem a ganhar com um aumento de jogadores, e que é possivel, com um pouco de imaginação e capacidade, fazer muito mais pelos estudantes nas escolas.
Tenho o privilégio de ser pai de um dos alunos que participaram do projeto citado no texto, e só tenho elogios para a iniciativa. Afinal, se nos periodos pré-históricos (não se usa mais este termo, conforme meu filho me ensinou, mas sou meio paleolítico para essas coisas), ou pré-escrita, as pessoas já se sentavam em uma roda para contar e ouvir histórias, aprendendo hábitos, costumes e trocando experiências sobre coisas úteis, mesmo nas narrativas mais divertidas, não há nenhuma razão para que o RPG, descendente direto desta prática, não possa nos servir, mais de 10.000 anos depois, ainda da mesma forma.
Nota 10 para a escola e para a professora.
Ao mesmo tempo muito me agrada que o RPG possa ser uma uma ferramenta das mais versáteis no ambiente escolar. Seu uso em matemática, leitura e escrita, uso de bilbioteca, linguas estrangeiras, arte, filosofia, geografia e, claro, história, mostram que a sociedade só tem a ganhar com um aumento de jogadores, e que é possivel, com um pouco de imaginação e capacidade, fazer muito mais pelos estudantes nas escolas.
Tenho o privilégio de ser pai de um dos alunos que participaram do projeto citado no texto, e só tenho elogios para a iniciativa. Afinal, se nos periodos pré-históricos (não se usa mais este termo, conforme meu filho me ensinou, mas sou meio paleolítico para essas coisas), ou pré-escrita, as pessoas já se sentavam em uma roda para contar e ouvir histórias, aprendendo hábitos, costumes e trocando experiências sobre coisas úteis, mesmo nas narrativas mais divertidas, não há nenhuma razão para que o RPG, descendente direto desta prática, não possa nos servir, mais de 10.000 anos depois, ainda da mesma forma.
Nota 10 para a escola e para a professora.










